O corpo, santuário sagrado onde profanamos nossas inseguranças ou sacralizamos nossas certezas, encerra em si as escolhas que fazemos cotidianamente, consciente ou inconscientemente, através de nossos medos ou de nossas bravuras.
As escolhas que nos conduzem e testemunham nossa jornada terrena, além de registrarem na escala do tempo nossos grandes e pequenos feitos, também imprimem em nosso corpo os registros que a alma irá recordar.
Ao se recordar, a alma ressoa em relação ao mundo deste corpo segundo os registros nele impressos e, assim, de forma exponencial, esses registros vão se multiplicando ao longo da jornada.
São muitos os modos como tais recordações se tornam fenômenos manifestos, promotores de novos registros.
Entre o sagrado e o profano de nossas decisões, deve-se sempre consultar aquilo que de mais profundo habita nosso coração, para que se possa compreender as tendências de nossas inclinações. Tendências essas que, forjadas sob a pressão que cada registro exerce sobre nossas deliberações, estabelecem o fator determinante de cada uma de nossas decisões.
Mas este não é um texto sobre tomada de decisões, nem sobre a sacralização ou a profanação de nossos corpos. Este é um texto sobre aquilo que deve ser inegociável em nossas relações. Antes, pretende explanar sobre valores que potencializam o poder que a entrega de nossas vulnerabilidades tem na construção de vínculos fortes e verdadeiros.
Sagrado é tudo aquilo que nas relações acolhe o que de vulnerável habita nossos corpos profanados pelo que de mundano nos atravessa a existência, desvelando potentes possibilidades de se encontrar, nas transparências desta entrega, a força do vínculo que a lealdade sela.
É sobre a transcendência da vulnerabilidade que a lealdade entrega, a todo àquele que ousa confiar e confia inegociavelmente, que durante o cultivo dessa relação nada que não pertença a ela possa atravessar o propósito do fortalecimento do vínculo estabelecido.
Entretanto, embora as relações de confiança sejam algo intuitivamente natural, são os registros que nosso corpo guarda — de medo, desconfiança e insegurança — que se apresentam no momento de uma nova tomada de decisão. Nosso corpo guarda, e nossa alma recorda. É nesse sentido que, de acordo com tudo o que foi experienciado, à parte de nosso protagonismo, nos descobrimos testemunhas passivas de nossa própria existência, agindo e reagindo não pelo que nos pertence, mas pelo que um dia foi vivido.
Quando, ao longo de nossa trajetória, acumulamos experiências de vínculos fortes e verdadeiros, torna-se fácil reconhecer onde essa intenção pode ser depositada. Mas, quando as experiências nos reservam registros de medo e insegurança, o corpo precisa ser ensinado a ser corajoso. Isso leva tempo.
Isso, definitivamente, não é intuitivo; precisa ser elaborado e reelaborado tantas vezes quantas forem necessárias até que se possa confiar novamente.
Esse é o exercício que proponho.
Cada um de nós deve entregar-se a esse estudo.
Faz parte do amadurecimento que a alma veio buscar nesta existência.
Nossos mitos e histórias, de algum modo, sempre estão ligados ao quanto se pode confiar no divino, no mundano, nos outros e em si mesmo.
Nossa capacidade de discernir está constantemente sendo desafiada por nossos enigmas existenciais. A questão aqui não se relaciona a uma vida traçada por caminhos sem desafios, mas sim, de forma insolúvel, a quão clara pode ser nossa visão acerca dos desafios que se apresentam e sobre os quais precisamos deliberar nossas existências.
Saber que a falsidade, a traição e o desamor existem não pode ser nosso único horizonte possível.
Confiar na verdade das relações, na lealdade das construções e no amor que pode habitar nossas mais profundas trocas é o segredo que se deve desvelar a cada página que escrevemos de nossas existências.
Esse não é um caminho claro e cristalino.
Ele sempre se apresenta cheio de enigmas e encruzilhadas. Nietzsche afirmou: “Toda escolha é uma renúncia”… Aqui, gosto de pensar que se pode escolher amar, e a renúncia dessa encruzilhada consiste em deixar que o medo se dissipe por completo na entrega de nossas vulnerabilidades àqueles que possam nos fazer sentir que cada uma delas guarda, em si, a sabedoria de algo que, em sua polaridade, representa uma potência do nosso existir.
Atenção!
Aqui cabe pontuar que não se deve permitir que qualquer um possa acessar o que de mais profundo nos habita. Essa escolha deve ser feita de posse de nossa plena capacidade racional e emocional — ou, ao menos, do que de mais próximo disso conseguirmos alcançar cotidianamente.
Sermos emocionados demais pode nos levar ao erro. Sermos frios demais, também.
O acesso às nossas delicadezas é um presente que não se entrega a quem não esteja apto a acolher. Esses são espaços e perímetros de segurança que nos cabe zelar com responsabilidade e discernimento.
Por isso, não é para qualquer um.
Mas, quando chega aquele outro alguém que nos entrega suas delicadezas e recebe as nossas, e, dessa troca, nascem potências criativas de novos horizontes, alcança-se a natureza verdadeira das nossas relações.
Assim, por mais parcerias potentes e mais trocas verdadeiras, desejo que possamos conhecer profundamente nossas delicadezas e nossas belezas.
Somente com esse conhecimento se pode deliberar sobre o acesso ao nosso espaço mais íntimo, diminuindo o risco de nos ferirmos nas relações que escolhemos cultivar.
Karina Zapater
Psicóloga
CRP 06/184974